Análise de Figurino - Legalmente Loira (2001)

abril 25, 2022
O quadro de análise de figurino entrou em um hiato por aqui e lá no canal, mas eu pretendo mudar isso. Não, não sei se posso prometer uma análise por mês, entretanto me esforçarei ao máximo pra pelo menos trazer um vídeo e um post sobre Moda & Cinema a cada dois meses. Vou conseguir? Não sei. Oremos! Espero que sim.

Até agora só fiz análises de filmes entre 1940 e 1950, e tava na hora de avançar, sabe? Apesar de amar essas épocas com todas as minhas forças, não podemos ignorar trabalhos relativamente recentes com construção de imagens muito boas. E um desses projetos é o filme Legalmente Loira (2001), do diretor Robert Luketic, que ano passado completou 20 anos desde o seu lançamento mundial. O tempo passa rápido, hein? 

E pra celebrar o aniversário da produção e também o anúncio de que vamos ter um Legalmente Loira 3 (eu esperei tanto pela confirmação), resolvi comentar o que eu mais gosto visualmente nesse clássico da Sessão da Tarde


Uma Garota Linda, Loira e Nada Burra

Antes de partir para os comentários sobre os looks, eu preciso fazer uma breve sinopse e comentários a respeito do enredo. Sim, talvez tenha alguns spoilers. Mas acho que é demais não querer spoiler de um filme tão batido. A menos que você seja muito jovem ou tenha vivido em uma bolha todo esse tempo, pelo menos algumas ceninhas você deve ter visto.

A personagem principal é Elle Woods, interpretada pela maravilhosa Reese Whiterspoon. Elle é uma garota popular e muito antenada na moda. Ela tem duas melhores amigas: Serena e Margot. O passatempo favorito das três é fazer compras.

Legalmente Loira vai trabalhar com os esteriótipos de que "pessoas bonitas não podem ser inteligentes" e que "toda loira é burra".

O mito da loira burra parece ter caído por terra - embora as piadas da loira odonto reforcem o estigma de que o cabelo loiro é um traço marcante na configuração de uma patricinha. Mas vamos voltar lá pro ano de 2000...


No começo dos anos 2000, diversos filmes, programas e até mesmo músicas satirizavam loiras. E nem precisamos ir muito longe não. Aqui no Brasil, o cantor de forró Frank Aguiar (o cãozinho dos teclados), lançou uma canção que se tornou um hit, estamos falando de O Hino das Loiras. A música diz o seguinte: 

A mulher loira
É nota dez e preferida
Carinhosa e definida
Tem poder de conquistar
Maliciosa
Tem a força da paixão
Quando toca o coração
Faz o cabra se amarrar...


Bom, até aí parece um elogio. Mas não é!


A mulher loira
É linda por natureza
Tem um toque de beleza
Igual a ela não há
Eu não concordo
Com esse dito popular
Pois a loira não é burra
Tem preguiça de pensar...


E pam!!! Essa última frase "a loira não é burra, tem preguiça de pensar" caiu na boca do povo. Virou uma espécie de meme na época.

Particularmente não acho que Frank Aguiar tivesse convicção que loiras fossem burras. Entendo que ele surfou em uma tendência de seu tempo e fez dinheiro em cima. Típico de artistas mediáticos. Nada novo sob o sol. 

Além disso, a música, apesar de proclamar que loiras são burras, o faz de uma maneira toda enfeitada. E o ritmo alegre ajuda na construção de uma áurea de "brincadeirinha" e "não é nada sério ou ofensivo".



Na real? Não vou problematizar, interpretem como vocês quiserem. Só quis citar como exemplo mesmo.

Na TV aberta, programas como Zorra Total na Globo e a Praça É Nossa no SBT sempre colocavam mulheres loiras em papéis de personagens com zero Q.I e muito foco no físico...

Com todo esse background, acho que dá pra entender o porquê de Legalmente Loira ter sido tão necessário.


Voltando pra sinopse


Elle é convidada para jantar com Warner, seu namorado. Ela acha que naquela noite será pedida em casamento e decide encontrar o vestido perfeito. Nossa loirinha sai em busca do modelito com suas amigas e vai parar em uma boutique de luxo. Nessa boutique acontece algo muito interessante: a vendedora acha que Elle pode ser facilmente enganada.



Sem nem conhecer e apenas olhando, a vendedora solta uma frase mais ou menos assim: "nada me deixa mais feliz do que uma loira burra com o cartão de crédito do papai". E então retira a etiqueta de um vestido com a clara intenção de cobrar mais caro por ele e o leva até Elle. Só que a nossa heroína era muito esperta sim senhor! 

Elle percebe o jogo sujo, desmascara a trambiqueira e mostra que pra todo mundo que vinha com o milho, ela já tava era com o fubá!

Após o episódio, Elle se direciona ao famigerado jantar e recebe um belo de um pé na bunda. Nada de noivado. E o resto é história... história que eu prefiro que vocês mesmos vejam.


Uma ótima direção de arte 


Legalmente Loira não tem só um figurino bonito, toda a direção de arte esteve impecável e merece os parabéns. Nesse filme é nítido as brincadeiras com as cores para projetar emoções e personalidades. Quer ver alguns exemplos? 


1) O filme tem início lá na Delta Nu (irmandade de Elle) e quando as câmeras percorrem pelos banheiros e quartos, os tons de rosa, amarelo e azul saltam na tela. É lindo, é pastel! Bastante agradável. E como essas cores são mais associadas às mulheres, nada mais justo do que colocá-las no design de interiores de uma fraternidade feminina.


2) Em uma das primeiras aparições de Elle junto das amigas todo mundo na cena está colorido, incluindo os figurantes atrás. Isso foi pra mostrar como o ambiente na Califórnia era festeiro e descontraído.



3) Quando Elle vai para Harvard, a trilha sonora (antes agitadinha) muda para um tom mais sério. E a personagem toda vestida de rosa chega contrastando com aquele lugar mais soturno, pra não dizer melancólico, com uma cartela cheia de cinza, verde envelhecido e marrons.



Contrastes assim são muito importantes para que o público capte, ainda que inconscientemente, o espírito de cada personagem.

Como eu analisei os looks mais detalhadamente no vídeo, vou apenas fazer uns comentários gerais.


Influência das Décadas de 50 e 60


Os fins de 50 e início de 60 foram bastante referenciados no filme e talvez você nem tenha percebido. A referência mais clara é o jogo entre Marilyn Monroe vs. Jacqueline Kennedy, personificado nas figuras de Elle e Vivian, respectivamente. 



Warner (a.k.a bundão), termina com Elle por achar que ela não era a "mulher ideal", "a mulher pra casar". Ele toma essa decisão baseado em preconceitos. Pra ele, a Elle nunca vai ser inteligente -e uma mulher que não é inteligente não serve para construir família. 



O problema do Warner não foi estipular Q.I pra escolher uma noiva, o problema dele foi nunca ter percebido como a Elle já era bastante inteligente. Ela só precisava de um empurrãozinho, como ela mesma diz no filme "às vezes a gente só precisa ter um pouco mais de fé nas pessoas". Pois é, mas o Warner era imaturo demais pra perceber.



Após o fim do namoro com Elle, Warner se envolveu com Vivian, uma típica burguesa old money de família tradicional. E aí entra o jogo dos opostos.

Segundo os boatos, o presidente J.F Kennedy teria tido uma relação extra-conjugal com a atriz Marilyn Monroe, por tanto traiu sua esposa Jacqueline Kennedy. 

Jackie e Marilyn eram esteticamente bem diferentes. Uma era loira, a outra morena, uma usava roupa sexy e provocante, a outra guardava por completo sua sensualidade. Jackie era a primeira-dama, a representação da mulher casada, estável e do lar. Monroe era atriz e vista como uma "mulher livre". Nem preciso dizer qual das duas era considerada como a esposa ideal no imaginário dos meados do século 20, né?



Elle ficou com o papel de Marilyn, e Vivian com o papel de Jackie. Enquanto Elle usa cabelo ondulado, roupas alegres e maquiagem aparente, Vivian é representada em tons sóbrios, com roupas mais discretas  (e para alguns até mesmo "antiquadas"), e a maquiagem é super suave.



Não pude deixar de reparar na cor do batom de Elle durante o jantar. O tom cintilante de rosa me lembrou alguns batons do fim da década de 1950.



E pra finalizar este tópico, a personagem Margot usa ao longo da trama o cabelo beehive hair (penteado colméia), clássico dos anos 60.


Várias referências ao mundo fashion


Se tem uma coisa que Legalmente Loira faz é referenciar o consumo de moda. Isso aparece em algumas oportunidades:

• Nas primeiras cenas do filme, quando o cachorrinho de Elle vai buscar o cartão, ao fundo vemos uma sacola da Prada.

• Revistas de moda aparecem o tempo inteiro. Na cena entre Elle e Brooke Taylor na cadeia, ela diz que a revista Cosmopolitan era a Bíblia.



• Já mais pro final do filme, Woods aparece com uma camisa da Gucci, podemos ver pelo monograma.



• E na cena do bebedouro, um certo personagem diz "não bata seus sapatos Prada da coleção passada pra mim, queridinha". 


Não negou a moda de seu tempo

Legalmente Loira não nega o estilo de sua época. Diversos elementos centrais da moda de 2000 podem ser notados: calça de cintura baixa, camisas com estampa hip-hop, boinas, argolas, plataformas e acessórios muito brilhantes.



Quem assinou o figurino foi a britânica Sophie De Rakoff, e esse é sem dúvidas, seu melhor trabalho. 


Texto escrito por Gabriela Lira.Caso use o texto como referência, por favor dê os créditos ao blog. Plágio é crime e está sujeito à pena!

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