Desenvolvendo Uma Coleção de Acessórios Retrô (Tiara e Snood Anos 40)

janeiro 13, 2022
Eu nunca compartilhei nenhum projeto de costura histórica por aqui, mas isso irá mudar em 2022. Pra quem não sabe, essa que vos fala, além de criar conteúdo para a internet e dar aulas e consultorias sobre a História da Moda e Maquiagem, também tem uma loja online de acessórios retrô (e brevemente roupas). A loja em questão é a Fatale Vênus (@fatalevenus no Instagram ou clica aqui no site). Outro dia conto melhor sobre a história da marca e seu universo. Mas hoje eu só quero falar da experiência incrível e muito cansativa que foi desenvolver minha primeira linha de acessórios 100% autorais.
Exemplo de rede de tecido dos anos 40.


A Inspiração no Início de 1940

Você que caiu de paraquedas por aqui não deve saber, mas você que me acompanha minimamente no YouTube ou Instagram,  percebeu a paixão fora do comum que eu tenho por tudo o que esteja relacionado aos anos 40.

Dizer que eu amo a moda dessa época é chover no molhado. Eu não só amo a moda, como também amo a maquiagem, os penteados, os filmes e os astros da época. É disparadamente minha década favorita do século 20.

Tente me convencer que não é a moda mais linda do século e falhe miseravelmente.

Tendo todo esse amor, eu coloquei na cabeça que minha primeira coleção seria inspirada em anos 40. Tá, mas qual anos 40? A época da guerra, o período um pouco antes do fim ou o pós guerra? Eu escolhi a época da guerra! Booom!

O período de guerra compreende 1939-1945, um recorte que me agrada bastante. E com esse recorte, eu poderia brincar com a estética dos anos 40 e com a estética de transição de 1930 pra 1940. Tudo perfeito. Agora era colocar a mão na massa. 


Criando um Painel de referências 

O primeiro passo que eu tomo ao iniciar um projeto de coleção é fazer um mural de referências visuais, o famoso moodboard. Pode parecer bobo, mas isso aguça bastante a criatividade. Nesse moodboard, eu não coloco apenas itens de moda, insiro fotos de lugares, pessoas, objetos, obras de arte, pôsteres de filmes, etc. É óbvio que tudo precisa estar conectado. Você precisa manter a coerência sempre.

Moodboard criado pela autora do blog. Não copiar.

Outra coisa: o mural ajuda a construir o universo da sua coleção. Um produto não é só um produto. Uma hora você vai ter que vender, e vender não é dom, é trabalho árduo. O cliente não compra só um acessório, ele compra uma experiência, um sonho, uma narrativa. E essa narrativa será melhor construída se você puder abordar outras coisas além daquilo que será ofertado. O que você quer vender é apenas uma partezinha de um mundinho fantástico que você precisa criar tijolinho por tijolinho. 

Não sei se vocês me entendem, mas eu enxergo assim.

Bem, acima deixo um moodboard que fiz. Observem a predominância do vermelho e do preto. Isso não foi à toa, essas cores foram centrais na proposta.


Definindo o que eu iria produzir

Essa é uma etapa muito importante. Você precisa tirar todas as ideias do papel e começar a desenhar, e acima de tudo:  precisa ser sincero consigo mesmo. Necessita analisar quantos itens a coleção vai ter e quais serão. E eu tinha tudo isso muito claro.

Rede de cabelo. Foto de acervo pessoal. Proibida reprodução.

Por ser a primeira, eu não queria muitos acessórios, mas não podia ser apenas uma ou duas coisas, porque aí não seria coleção, né? Então eu fechei com sete, entretanto só materializei quatro. Deixei três acessórios para lançar na temporada outono-inverno de 2022. Shame on me? Não acho. Primeira coleção, todo mundo tem um medinho de fracassar, e eu realmente não queria jogar dinheiro fora. Eu precisava usar essa coleção como uma espécie de "teste". E olha, eu aprendi muito com ela. Mas isso fica pra outro post.
Cartela de tecidos e aviamentos. Arquivo pessoal. Proibida a reprodução.

Depois de toda essa reflexão, vamos revelar minhas escolhas: 

• 2 tiaras
• 2 redes de cabelo (também conhecida por snood);

Os acessórios que ainda não foram lançados não vou citar quais são. Fiquem na curiosidade. Ou voltem aqui daqui uns meses. 

Bem, depois de escolher, eu corri pro Pinterest e criei uma pastinha com fotos de acessórios de cabeça do fim de 1930 e início de 1940. Eu também acrescentei receitas com moldes da época e técnicas de costura. 

Eu queria fazer algo muito próximo à uma recriação histórica. Mas já adianto que tomei liberdades poéticas e fiz algumas  modificações. 


Eu queria fazer um snood e consegui (mas achei que não conseguiria)

Na gringa chamam pomposamente de snood, mas em qualquer revista da época, incluindo as do Brasil, o termo utilizado era o bom e velho "rede de cabelo". Simples assim! 

E essa foi a rede que me inspirou. 

Só que rede de cabelo teve várias: de crochê, de nylon, de tecido. Eu queria confeccionar uma redinha com transparência. Uma que vi na propaganda da Lily Daché e era cara da Fatale Vênus. Tinha um ar chique demais. 

Mas antes de falar da minha rede, vamos falar das redes nos anos 40?


Breve história das Redes de Cabelo em 1940

Pois bem, com a guerra, muitas mulheres casadas e com vida estável puderam entrar no mercado de trabalho. Acho bom frisar essa condição porque mulheres pobres sempre tiveram que trabalhar, belê? Com mulheres trabalhando e com a falta de produtos de higiene capilar em alguns países, os penteados tiveram de ser revistos.

Mais começo de anos 40 do que isso você não encontra.

• Muitas mulheres foram trabalhar em fábricas, e esses lugares precisavam de uniforme e outros aparatos de proteção. É sabido que algumas mulheres que seguiram o estilo de cabelo peek-a-boo da Veronica Lake (clica aqui pra ler mais sobre esse rolê), sofreram alguns acidentes de trabalho que basicamente eram o cabelo preso nas engrenagens. Tenso, né não? O governo convidou Veronica para uma campanha e as indústrias passaram a exigir o uso de algum acessório que protegesse as madeixas. E foi então que as redes explodiram.

Exemplo de uma rede de crochê. Pega boa parte da cabeça.

As redes mais usadas foram as de crochê, e esse modelo era o preferido entre as operárias. Já as mulheres que trabalhavam em ambientes fora da fábrica e até mesmo atrizes, ou seja, mulheres com mais "liberdade" na composição de seus visuais, foram adeptas das redes feitas com materiais alternativos. 

Atriz com uma rede mega luxuosa. Queria. 

Redes foram usadas em quase todas as ocasiões. Se você quisesse ir jantar com um vestido mega glamouroso, não seria muito difícil encontrar uma rede brilhante para ornar com ele. Quanto mais enfeitada uma rede, mais distante dos eventos comuns ela ficava. 


Okay, mas e a minha rede?

Eu optei por trabalhar com o tule. Material fácil de encontrar, excelente variação de cores e o principal: tem a tal transparência que eu precisava. 

Fora o tule, usei o cetim na borda da rede e para fazer as alças, e adicionei fita de veludo para enfeitar o snood vermelho e meia pérola para a rede preta. Todos esses materiais existiam em 1940. Você poderá argumentar que o cetim dos anos 40 era mais encorpado, e tudo bem, realmente era, mas onde que encontra? Cri cri, cri. Vamos usar o que temos! 

Foto de acervo pessoal. Reprodução proibida.

Depois dos materiais escolhidos, chegou o momento de fazer o molde. 


O molde era mais fácil do que eu podia supor, mas alguns detalhes nem tanto

Eu não sei que bug deu na minha cabeça, mas eu fiz um molde bem mais complexo do que realmente eu precisava, e que não deu nada certo. Acho que tá guardado em algum lugar como recordação do meu fracasso. Não sei bem. Se eu achar coloco no post.

Basicamente, eu fiz um trapézio. Isso mesmo, um trapézio! E agora entendo o porquê de não não ter achado um molde da época. O molde correto é pura e simplesmente um quadrado. Apenas. E depois de descobrir que era só isso, fiquei mais aliviada, pero no mucho. 

Foto de acervo pessoal. Proibida reprodução.

Vencido o molde, chegou a hora das alças. E eu confesso que minha ideia inicial não era fazer alças. Eu queria mesmo era usar tiaras. Pois é, eu vi algumas redes com tiaras. Mas não consegui fazer nem com reza braba. Quando botei a bendita tiarinha, o snood simplesmente não abriu direito. E ele precisava de certa mobilidade nas laterais pra ajeitar o cabelo. Enfim, não me perguntem como eram feitas. Não decifrei o mistério. Me julguem mesmo.


Depois de algumas horinhas de frustração resolvi navegar por esses sites que vendem coisas antigas, e fuçando bastante, encontrei uma rede real.oficial dos anos 40 com alças de tecido. Ufaa, nem tudo estava perdido! Eu ia botar meu cetim pra jogo. E foi isso que eu fiz. Deixei as tiaras de lado e fui fazer as alças. Muito mais prático e sem peso na consciência por não estar historicamente correto.

Foto de acervo pessoal. Proibida reprodução.

Costurei a estrutura da rede na máquina reta com o tule sambando. Deu tudo certo. As alças foram costuradas à mão, bem como os detalhes de veludo. E na rede preta, as pérolas foram coladas uma a uma, com amor e muita paciência. Usar supercola nunca é fácil.

Um leão que matei. Vamos pro próximo.


É tiara ou toucado?

Existia o termo tiara? Sim, mas em 1940, tiaras eram mais referidas como toucado.Sinceramente??? Poucas pessoas sabem disso, então eu chamo de tiara pra todo mundo conseguir entender do que eu tô falando. 

Foto de acervo pessoal. Proibida a reprodução.

Eu queria fazer uma tiara básica, mas não simplesmente tacar um pedaço de tecido em uma base. Eu queria algo com um acabamento mais digno. Então decidi modelar ela em uma espécie de "diadema". Pra isso, trabalhei com mini moulage, e achei bacana, porque por mais que eu queira, nenhuma peça fica igual à outra. É trabalho manual, meus amigos. É exclusivo!

Foto de acervo pessoal. Proibida reprodução.

A tira de tecido obviamente foi passada na máquina, o restante foi costura à mão, alguns xingamentos enquanto fazia e orações para que tudo ocorresse bem. Executei e gostei do resultado. Não foi nada mirabolante. Mas o projeto, ainda que te pareça banal, sempre te ensina alguma coisa. 

No vídeo acima contei mais da parte burocrática do desenvolvimento de uma coleção de moda: compra de materiais, prazos, execução e estudo de público-alvo.

Caso queiram comprar algum dos acessórios mostrados, acesse:


Texto escrito por Gabriela Lira. Caso use o texto como referência, por favor dê os créditos ao blog. Plágio é crime e está sujeito à pena!

Quer que eu escreva pra você? Entre em contato através do Instagram @blondevennus. 



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