História da Maquiagem: Século 16

janeiro 01, 2022
Todas as épocas tiveram seus cosméticos de procedência duvidosa, mas poucas conseguem nos surpreender tanto como o século 16. Do ceruse usado por Elizabeth I à poção de ouro da juventude, veja algumas das receitas mais bizarras. 



O que aconteceu de importante no século XVI? 

Embora tenha iniciado nos fins do século 15, podemos dizer que a Era Moderna se estabeleceu de fato no século 16. 

Conhecida como a Época das Grandes Navegações, esse período foi marcado pelos países europeus se lançando ao mar em busca de novas rotas comerciais. E nessas aventuras marítimas - muitas vezes trágicas, novos continentes foram "descobertos". 


É impossível falar do século 16 sem mencionar a colonização das regiões do continente americano. O Tratado de Tordesilhas, assinado ainda no século anterior, especificamente em 7 de Junho de 1494, dividiu o mundo em duas partes, onde o Reino da Espanha e o Reino de Portugal eram soberanos. 

O Renascimento não se deu apenas nas relações econômicas, ele também se manifestou nas artes plásticas, literatura, música, moda e beleza. Foi no século 16, inclusive, que nasceu o conceito de "Moda".


A Estética no Início do Século 

O homem e a mulher do começo dessa época estavam divididos entre a fé e o racionalismo, e essa dualidade se manifestou perfeitamente bem na composição das figuras nobres que trajavam suntuosas peças em contraste com um rosto pálido e pouco maquiado. Isso foi principalmente observado na corte inglesa, no reinado de Henrique VIII, da casa Tudor.

Retrato de Henrique VIII, famoso por seu cabelo ruivo dourado.

"Na Inglaterra, o espírito da Renascença demorou a despertar e só se concretizou no reinado de Elizabeth I. No entanto, a moda do início do período Tudor ilustra a influência da Itália. Um cavalheiro Tudor mais particularmente representa o elemento renascentista na Inglaterra com sua rica roupa colorida, acolchoada e em vastas proporções para exagerar sua forma masculina e dar uma impressão de poderosa virilidade latente. Mas a mulher Tudor ainda mantém a rígida imobilidade de uma escultura gótica com seus vestidos de tecido pesado em relevo com bordados luxuosos. A inflexibilidade de suas roupas dá a ela um esplendor estático tão admiravelmente ilustrado
nos retratos de Holbein". [1]

Retrato de Ana Bolena, segunda esposa de Henrique e mãe de Elizabeth I.

A maquiagem na corte inglesa durante a Era de Henrique VIII foi praticamente inexistente. O que podemos afirmar é que as mulheres dessa época continuavam a nutrir a obsessão por uma pele pálida e sem manchas. 

A grande virada do século aconteceu em 1559 com a ascenção ao trono da jovem Elizabeth, filha de Henrique VIII com Ana Bolena.


A Moda Elizabetana

Elizabeth, ou Isabel, como também é conhecida, foi uma das maiores monarcas da história da Inglaterra. Seu reinado, apelidado de A Era de Ouro, foi marcado por grandes incentivos às artes de todas as espécies, em particular a dramaturgia. A rainha era uma grande apreciadora do teatro

Retrato de Elizabeth I.

A diferença entre a moda da época de Elizabeth e a época de seu pai, ainda no início do século 16 é gritante. Embora algumas estruturas de vestuário tenham permanecido as mesmas, os tecidos se tornaram mais ricos em brocados, bordados e aplicações de pedras preciosas. 

À esquerda exemplo de rufo e à direita exemplo de Whisk Collar.

Uma característica emblemática do vestuário elizabetano foi o rufo, um acessório que era usado ao pescoço e um dos marcadores entre pessoas ricas e pessoas pobres. Outro acessório que não pode deixar de ser mencionado é o "Whisk Collar", uma estrutura aberta que ficava em torno do pescoço e lembrava em alguns casos o formato de um leque aberto. O Whisky Collar foi usado exclusivamente por mulheres.

E esse vestuário tão chamativo igualmente foi acompanhado por uma maquiagem marcante e centrada na figura de Elizabeth. Era ela quem lançava as tendências de beleza que tão logo se espalhavam por toda a Europa. 


A Maquiagem Elizabetana

Elizabeth contraiu varíola na juventude. A doença é caracterizada por deixar marcas na pele. Marcas que com certeza perturbaram seu espírito. Em um século onde deficiência física, marcas, manchas, caroços, etc eram considerados uma manifestação do mal, é óbvio imaginar que Elizabeth quisesse se preservar e evitar falatórios. Foi então que ela iniciou uma rotina cosmética pra lá de perigosa.



A principal característica da maquiagem no século 16 foi a pele extremamente branca e opaca. Pra conseguir tal efeito as mulheres faziam uma mistura de pó de chumbo com vinagre e arsênico, conhecida popularmente como ceruse, e após aplicar no rosto, pescoço, colo e braços, passavam uma fina camada de clara de ovo e deixavam secar. 

O pó de chumbo não era nenhuma novidade no século 16. Gregas e principalmente romanas já haviam usado tal artifício para clarear a pele muitos anos antes. Mas por debaixo da tez tão sonhada havia uma série de problemas.


1) O pó de chumbo era extremamente tóxico! 

Acredita-se que diversas mulheres, incluindo Elizabeth I, tiveram sua morte acelerada por causa da utilização do ceruse. O chumbo tem um alto poder de intoxicação, e seu uso prolongado pode ocasionar vômitos, enjôos, fortes dores de cabeça, diarréia, mal estar, e em um quadro mais grave, pode sim levar à morte. 


2) O ceruse se tornou um ciclo vicioso

As camadas espessas do ceruse destruíam a pele. O chumbo era um ingrediente muito agressivo que formava buracos e deixava a pele escurecida. As mulheres caíam então em um efeito rebote. Quanto mais usavam o ceruse mais precisavam usá-lo. E a falta de banhos frequentes só piorava a situação, pois os resíduos se acumulavam.

A boca e as bochechas vermelhas eram conseguidas especialmente através do mercúrio. Outros meios envolviam vinho, sumo de beterraba e pau-brasil, mais esses métodos foram melhor observados no começo do século 16.

O mercúrio, assim como o chumbo causou seus estragos.

Exemplo de excelente recriação da maquiagem dessa época.

Não podemos afirmar que esses cosméticos mataram diretamente a rainha Elizabeth I, no entanto, o que muitos pesquisadores acreditam é que eles ajudaram a deteriorar sua saúde, que já estava bastante debilitada na velhice. 

"Durante os últimos anos de sua vida, Elizabeth perdeu o apetite e piorou
mentalmente e fisicamente. Ela sempre tinha acessos de raiva com as damas que esperavam e às vezes jogava cosméticos e pincéis nelas. O afilhado da rainha, Sir John Harington, notou que ela 'não suporta agora o espírito tão sereno que ela estava acostumada; mas ... parece mais ousada do que normalmente costumava se comportar com as mulheres dela. ” Embora ela sempre tivesse tomado medidas sensatas para garantir sua segurança pessoal, como todos os monarcas faziam, na década de 1590 ela desenvolveu uma forte onda de paranóia. Os jesuítas, disse ela, estavam tentando assassiná-la. Sir John Harington observou: 'Ela anda muito em seu quarto privado, e bate os pés com más notícias, e enfia sua espada enferrujada às vezes nas arras [tapeçaria] com grande raiva.'

Ela tornou-se cada vez mais solitária e deprimida à medida que seus velhos amigos faleciam. O golpe mais forte veio em 1601, quando ela teve seu jovem admirador, Robert Devereux, segundo conde de Essex, executado por traição. Giovanni Scaramelli, o embaixador veneziano, relatou: 'Ela se retraiu tão repentinamente em si mesma, ela que costumava viver tão alegremente, especialmente nestes últimos anos de sua vida. Seus dias pareciam numerosos na verdade, mas não agora, ela permite que a dor superasse sua força.

Em seus dois anos restantes, a rainha muitas vezes sentava-se no escuro, chorando. Elizabeth Tudor, a política astuta e enérgica, tornou-se indecisa e queixosa, e parecia estar perdendo o controle de seu poder. Alguns contemporâneos pensaram que isso era apenas o resultado da idade. Estar na casa dos sessenta anos naquela época era como estar na casa de alguém de oitenta anos agora, no final de uma longa vida com diminuição natural de aspectos físicos e habilidades mentais. Mas, mais recentemente, alguns especialistas acreditam que essas mudanças na personalidade pode ter sido o resultado de décadas de envenenamento cosmético e medicinal. Infelizmente, nenhuma autópsia foi realizada em Elizabeth, que estava bastante melindrosa". [2]


Ouro, o elixir da juventude

Havia uma crença equivocada no século 16 que tomar ouro ajudaria na vitalidade e beleza. Folhas de ouro aparecem com frequência em receitas de skincare da época.

Diane di Poitiers, amante do rei Henrique II da França foi uma das adeptas da técnica. Segundo relatos, ela ingeria todas as manhãs ouro em forma líquida e outras substâncias. Curiosamente, muitos elogiavam sua bela aparência, que mesmo em idade avançada se fazia notar. 

Retrato de Diane di Poitiers.

Quando os fios do cabelo de Diane foram estudado, os cientistas ficaram surpresos com a quantidade elevada de ouro e também mercúrio. Ou seja, as especulações sobre ela tomar ouro eram verdadeiras. 


Deficiência de Vitamina D

Como foi dito parágrafos acima, as mulheres do século 16 faziam de tudo por uma pele clara. Essa busca teria custado a saúde de muitas, não só pela utilização de produtos letais mas também porque elas se recusavam a tomar sol.

Mais outra bela recriação.

Banhos de sol são fundamentais para a saúde humana. O sol é rico em vitamina D, substância importantíssima para o funcionamento de vários órgãos e também por ajudar no sono e regulação do humor. A deficiência de vitamina D pode ocasionar o aparecimento de doenças e quadros de depressão e indisposição.

Hoje, a suplementação pode acontecer por meio de remédios via oral aliados com uma dieta bem planejada. Mas estamos falando do século 16, e a medicina nem se compara com a de hoje. 

Estudos feitos com ossadas de dois bebês encontradas na cripta da família Médici mostraram que as crianças eram portadoras de raquitismo severo. Acredita-se que elas tenham herdado a doença da mãe, que por sua vez deveria estar enfrentando um grau bastante delicado de deficiência de vitamina D.

"Além do envenenamento por metais pesados, parece que a maquiagem espessa também pode ter causado raquitismo, uma grave deficiência de vitamina D devido à falta de luz solar. 

Em 2013, pesquisadores italianos relataram ter encontrado dois recém-nascidos do século XVI com raquitismo severo na cripta da família Médici em Florença. Aparentemente, suas mães quase não absorveram a luz solar durante a gravidez". [3]


E por fim, a planta Belladonna, nativa do Hemisfério Norte, foi usada nos olhos. Acreditava-se que alguns pingos de Belladonna seriam capazes de dar um brilho irresistível. Todavia, a Belladonna é extremamente tóxica e perigosa, devendo ser administrada com cuidado. 

"Para fazer seus olhos brilharem e parecerem maiores, as mulheres usavam gotas de belladonna, uma planta também conhecida como beladona, veneno favorito entre os antigos romanos. Com o tempo, essa prática resultou em distorção visual, aumento da frequência cardíaca e envenenamento". [4] 

Texto escrito por Gabriela Lira. Caso use o texto como referência, por favor dê os créditos ao blog. Plágio é crime e está sujeito à pena!

Quer que eu escreva pra você? Entre em contato através do Instagram @blondevennus. 

Informações sobre o curso aqui 


Fontes consultadas: 

[1] The Artificial Face (1973) - Fenja Gunn, editora David & Charles.

[2, 3, 4] The Royal Art of Poison (2018) - Eleanor Hermann, editora St Martin's Press New York. 


Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.