Moda Nos Anos 1940 - (Estados Unidos): Do Militarismo à Influência do Cinema

fevereiro 02, 2021
Mais um episódio sobre a História da Moda na década de 1940, e hoje vamos viajar diretamente para os Estados Unidos. Caso você não tenha lido o primeiro artigo, por favor clique aqui, pois neste post introdutório falei sobre o vestuário utilitário, racionamento de tecidos, militarismo, entre outras coisas.

O patriotismo esteve fortemente presente nos anos de guerra.

Como e Por que os Estados Unidos Entraram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945)?

Quando falamos da moda nos anos 1940 é sempre muito importante entender qual foi o posicionamento do país estudado em relação aos conflitos da guerra, se foi do eixo, se foi aliado ou se manteve uma postura neutra. Quanto mais envolvido um país estava, mais transformações em seu vestuário.



E os Estados Unidos se mantiveram em neutralidade até 7 de dezembro de 1941, quando a base naval de Pear Harbor, no Havaí, foi atacada por forças japonesas. Mesmo no período em que esteve neutro, o governo americano já dava indícios de apoio aos Aliados. 

Trabalhadora na década de 1940.

"O Japão era aliado da Alemanha desde um pouco antes do início do conflito (precisamente desde 1937). Isso significa que o país da Ásia se beneficiou da aliança, a exemplo da ocupação da Indochina francesa pelos japoneses, quando a França foi invadida pelas tropas alemãs em 1940.

Deste modo, foi natural que Franklin Roosevelt temesse a expansão japonesa. O então presidente tomou algumas medidas com relação ao Japão, sendo que a primeira delas foi anular os acordos comerciais que mantinha com os japoneses. Iniciava-se assim o embargo de petróleo e de matérias-primas minerais fundamentais para a indústria de guerra japonesa". [1]

Catálogos de roupa da década de 40.

O ataque a Pearl Harbor mudou drasticamente a opinião pública americana, que até então defendia a política do não-envolvimento.

"Com o ataque à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, a opinião pública mudou radicalmente. O dia 7 de dezembro de 1941 foi responsável por colocar os Estados Unidos diretamente nas batalhas e, poucos dias após a tragédia, Alemanha e Itália, declararam guerra aos EUA. Assim, os estadunidenses começaram a pensar no provimento de sua capacidade bélica, recrutando mais de 15 milhões de soldados, e acumulando mais de 300 bilhões em gastos militares". [2]

Mulher da década de 40. Observe a riqueza das estampas.

O Desenvolvimento da Moda Americana nos Anos 40

Até finais de 1930, os americanos e vários outros países do ocidente, eram dependentes da Moda feita na cidade de Paris. Diversos estilistas franceses foram trabalhar nos Estados Unidos como figurinistas. Mulheres abastadas iam para a França comprar diretamente dos ateliês de alta-costura, e muitas lojas americanas copiavam os modelos e estilos de Paris. Essa questão da cópia, por exemplo, é abordada no filme Fashions of 1934, com Bette Davis no elenco.

Adrian, um dos maiores figurinistas da história do cinema. À direita preparações do figurino de Ziegfeld Girl (1941).

Com a ocupação nazista em Paris, a moda francesa foi momentaneamente esquecida, e a produção local se fortaleceu. Nesse cenário, os americanos tiveram duas grandes estilistas, Claire McCardell e Hattie Carnegie.

Os principais pólos do comércio têxtil americano eram as cidades de Nova Iorque, com um estilo urbano e Los Angeles, terra do cinema e com marcas mais glamourosas.

Criações de Hattie Carnegie nos anos 40.

"Los Angeles tinha uma indústria de vestuário bem estabelecida e, nos anos 1930,  havia começado a exercer alguma influência na moda mundial por causa das criações para Hollywood. Embora essas nunca tenham rivalizado seriamente com as de Paris, em especial porque eram interpretações da alta-costura parisiense, estilistas de estúdio como Adrian tinham conquistado certo patamar de fama e respeito como inovadores na moda. Los Angeles estava, portanto, um passo além de Nova Iorque, pois já tinha alguma reputação na criação, mesmo que pequena, e de fato a presença dos ricos e famosos na cidade significava que muitos estilistas norte-americanos escolhiam abrir suas lojas de alta-costura exclusivas por ali. Igualmente, as lojas de departamento nova-iorquinas possuíam filiais em Los Angeles e mantinham as coleções dos estilistas locais em estoque". [3]


Claire McCardell e o Estilo Americano

Como foi dito acima, Claire McCardell foi um dos principais nomes da Moda estadunidense nos anos 40. Assim como outros estilistas da época, ela também foi consultada para desenvolver roupas que seguiam o padrão do racionamento.

Criação de Claire McCardell.

Claire foi responsável por introduzir o estilo esportivo e casual no gosto do americano. Suas criações dos anos de guerra valorizavam o algodão e outros tecidos de fabricação local. Eram vestidos simples, mas de um militarismo muito mais suave se comparado com o estilo da Inglaterra.

Criações de Claire McCardell. Década de 1940.

"Claire McCardell e Hattie Carnegie tornavam-se rapidamente nomes familiares, e Adrian tinha aberto uma marca com seu nome. A moda proposta por eles era uma mescla fina e casual de roupa para o dia, consistindo principalmente de peças separadas, inspiradas no visual das estudantes, e roupa elegante para a noite, influenciada pelos vestidos longos hollywoodianos luxuosos". [4] 

 
O Militarismo Britânico x Militarismo Americano

Os Estados Unidos também adotaram o esquema de vestuário utilitário, com várias restrições que deveriam ser obedecidas pelos fabricantes de roupas. No entanto, o país não abraçou a dinâmica dos cupons e nunca houve de fato racionamento por lá.

Catálogos da década de 40.

A situação dos ianques era muito mais confortável se comparada com a Inglaterra, e isso fez com que o militarismo dos Estados Unidos fosse mais rico em cores e estampas. Já a silhueta era a mesma da inglesa: ombros quadrados, cintura ajustada e vestidos e saias na altura dos joelhos.

Catálogos na década de 40.

As mulheres americanas conseguiam comprar mais facilmente acessórios (broches, lenços, luvas, brincos) e conseguiam incorporar também alguns elementos românticos ao visual sisudo que era vigente.


A Escassez de Seda Nos Estados Unidos de 1940 e as Fibras Sintéticas 

Os principais produtores de Seda do mundo naquela época eram países asiáticos, que estavam sob o domínio japonês. Com a intervenção do Japão naquela região, muitos países ocidentais se viram sem o insumo.

A seda nos Estados Unidos era usada largamente para a confecção de lingerie, e especialmente para as meias. As meias tinham um grande apreço feminino e eram consideradas indispensáveis no guarda-roupa.

Rita Hayworth com lingeries da época.

Com a falta da seda, as fibras sintéticas, tais como o náilon, entraram em cena. O náilon foi fabricado pela primeira vez na década de 1930, mas foi nos anos 40 que se tornou popular.

O problema é que em todo Estados Unidos só havia uma fábrica de náilon, e essa era a DuPont. No começo, a DuPont conseguiu atender bem a demanda pela fabricação das meias, mas com o acirramento dos conflitos, o país precisou de mais fábricas junto no esforço de guerra, e toda produção de náilon da DuPont foi destinada para fazer para-quedas e outras peças de proteção.

Meias na década de 1940. À direita propaganda da DuPont.

"Como rayon e acetato, em uso ao longo das décadas de 1920 e 1930, ambos derivados da celulose (fibra vegetal), da DuPont, o náilon foi a primeira fibra inteiramente constituída quimicamente que, ao longo da década de 1940, foi adotada como um substituto adequado para a seda.  

Na década de 1940, a demanda por meias de náilon causou a venda de 64 milhões de pares, embora durante a guerra o náilon fosse confiscado para cordas, tendas e pára-quedas de batalha, e as pernas descobertas das mulheres foi mais um exemplo de patriotismo do que vontade de viver sem meias". [5] 

Meias do final da década de 40.


A Influência do Cinema na Moda 

Desde os anos 20, o cinema era um dos principais produtos americanos, e os astros e estrelas influenciavam a moda e os costumes.

O cinema foi a grande vitrine de Moda na década de 1940.

Na década de 1940, o cinema foi usado para divulgar o estilo militar. Atrizes apareciam com terninhos e acessórios modestos. Mas se nas telonas, o estilo era básico, o mesmo não podemos dizer do que elas vestiam em eventos, festas e badalações. 

A americana estava portanto, dividida entre o sentimento patriótico, que preconizava a austeridade, e o desejo ardente pelo glamour que rondava as mansões de Hollywood.

Hedy Lamarr em estilo casual e sofisticado.

Exotismo e Tropicalismo Através da Política de Boa Vizinhança

A Política de Boa Vizinhança, foi um conjunto de estratégias que buscaram aproximar os Estados Unidos dos países latinoamericanos. Havia um grande temor de que esses países se aliassem à Alemanha, e muitos governos dessas regiões já demonstravam certa simpatia à ideologia nazi-fascista - algo que definitivamente não era benéfico aos Estados Unidos. Pensando em tudo isso, a Política de Boa Vizinhança veio para estreitar os laços entre estadunidenses e latinos.

Poster do filme Você Já Foi a Bahia? (1944). Disney.

O ponto central da estratégia foi o aproximamento cultural, isto é, demonstrar interesse pela cultura latina-americana e exibi-lá ao mundo. Para isso, diversos artistas daqui foram convidados a trabalharem nos Estados Unidos, entre eles a cantora e atriz Carmen Miranda.

Aurora Miranda em fotos promocionais com Pato Donald

O estúdio Walt Disney criou o primeiro personagem latino, Zé Carioca, que apareceu pela primeira vez no filme Alô, Amigos de 1942 e voltou a aparecer em Você Já foi a Bahia? de 1944, onde contracena com Aurora Miranda (irmã de Carmen) em algumas partes. Essas duas produções são exemplos de filmes que tinham a América Latina ou personagens latinos como protagonistas.

Carmen Miranda. Foto: Reprodução.

Carmen Miranda, a Brazilian Bombshell, foi a principal expoente da cultura brasileira em Hollywood. Sua baiana estilizada virou fantasia de Carnaval, e seus turbantes se tornaram um sucesso entre as mulheres americanas. Carmen chegou a ter linhas de acessórios licenciados. O estilo visto como exótico ganhou as telas e as ruas. E o colorido de Miranda trazia um pouco de alegria para aqueles anos tão difíceis.

Carmen Miranda e seu inesquecível estilo tropical. 

Patriotismo nas Roupas e Propagandas

O patriotismo se manifestou também nas cores das roupas. Diversas marcas apostaram na mescla entre o azul, branco e vermelho (cores da bandeira dos Estados Unidos). Listras vermelhas e brancas foram uma grande tendência na época. A moda era portanto, um modo de engajar as pessoas, de as fazerem sentir entusiasmo e a lutar contra um inimigo em comum.

Exemplo de vestido com temática patriótica. 

Esse patriotismo esteve presente igualmente nas propagandas de cosméticos e maquiagens. Não raro batons recebiam nomes que remetiam ao universo da guerra. Militares eram mostradas sempre muito bem maquiadas, enquanto serviam com alegria ao seu país. 

Exemplo de catálogos com peças patrióticas. 

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Texto escrito por Gabriela Lira.Caso use o texto como referência, por favor dê os créditos ao blog.

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Fontes:

[1] e [2]: Segunda Guerra Mundial - Edição de Colecionador, Alto Astral Editora, 2017. Página 39.

[3] e [4]: A Moda na Década de 1940, Editora Publifolha, 2014 - Charlotte Fiell e Emmanuelle Dirix. Página 22.

[5] American Culture in The 1940s - Jacqueline Foertsch, Edinburgh University Press, 2008. Página 194.


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