A Pré- História - Como Surgiram As Roupas?

janeiro 10, 2020
O que é Pré-história?

A pré-história vai desde o aparecimento dos primeiros hominídeos na Terra até mais ou menos 3.000/3.500 a.C, época em que se encontram os primeiros registros de escrita.

A escrita é por tanto um fator fundamental para o desenvolvimento das civilizações. Essa época é costumeiramente dividida em quatro fases: Paleolítico (Idade da Pedra Antiga/Lascada), Mesolítico (não apareceu em todos os lugares), Neolítico (Idade da Pedra Nova/Polida) e Idade dos Metais.


Moda na Pré-história
Representação do homem pré-histórico. Foto: Reprodução.

Importante frisar que durante a pré-história havia diversas espécies de hominídeos convivendo juntos, e na maior parte do tempo competindo entre si.

Uma das teorias sustentada por alguns estudiosos é de que a nossa espécie, Homo Sapiens, levou ao genocídio alguns grupos de hominídeos, e só assim conseguimos nos estabelecer no patamar mais alto da cadeia evolutiva.

Vestuário Pré-histórico
Esquema da linha evolutiva do gênero Homo.Foto: Reprodução.

O homem paleolítico é descrito como caçador-coletor, não havia desenvolvido ainda a agricultura, por tanto não tinha morada fixa e era nômade, um verdadeiro peregrino que se mudava de acordo com as necessidades fisiológicas, especialmente no que diz respeito às temperaturas.

Vestimentos pré-históricas
Representação da Era Glacial. Foto: Reprodução.

Mudanças climáticas foram um fator fundamental no desenvolvimento da cultura e do vestuário. Boa parte da pré-história foi marcada pelas Eras Glaciais, e assim, nossos ancestrais viviam fugindo das baixíssimas temperaturas.

Uma das alternativas encontradas foi se agrupar em cavernas. Nesse período, isolado de tudo, longe do gelo e de animais perigosos, as cavernas se tornaram casas e lugares onde os primeiros homens deixaram registradas a sua arte.

Pintura Rupestre Pré-historia
Uma das muitas pinturas na caverna de Lascaux, França.

A Pintura Rupestre é símbolo da pré-historia, e embora não se encontre explicações únicas para os seus significados, ela diz ao menos que nossos ancestrais tinham noções de arte e gostavam de se expressar através dela.


Por que Nós Nos Vestimos? 

Pensar nessa pergunta é igualmente pensar na origem do Vestuário. E vamos responder a indagação por partes:

1- A principal razão para o surgimento das vestimentas foi a própria evolução que fez os primeiros homens perderem pelos relativamente cedo.

E talvez você se pergunte: "se os pelos eram proteção, porque a evolução foi tão cruel em nós tirar isso?"  

Se pensarmos pelo ponto de vista da proteção, a perda dos pelos realmente foi um grande entrave; no entanto, os pelos não estavam sozinhos, uma superfície muito peluda aumentava a incidência de piolhos e demais parasitas, que à longo prazo poderiam causar algumas complicações para a saúde dos primeiros homens.

Mas é claro, essa é apenas uma das hipóteses sobre a explicação da redução da pelagem em nossos ancestrais.

Vestuário na Pré-História
Representação do cotidiano na Pré-histórico. Foto: Reprodução.

O fato é que sem proteção natural e com risco de morrer de hipotermia, os homens pré-históricos precisaram desenvolver subterfúgios para solucionar essa questão.

E como eram essas roupas pré-históricas?


Vou usar como base para o nosso estudo o artigo do PhD em Arqueologia pela Universidade de Sidney, Ian Gilligan - possivelmente o maior nome da atualidade quando se trata de vestuário na pré-história.

De acordo com ele, as roupas pré-históricas podem ser divididas entre simples e complexas. Veja abaixo uma tabela com as principais diferenças.[1]

Roupas Simples:

- Equipada: Não
- Número de camadas: Uma
- Proteção contra o frio: Fraca
- Raspagem: Sim
- Instrumentos de perfuração: Geralmente não
- Instrumentos de corte: Não
- Durabilidade no frio: Não
- Função decorativa: Não
- Função social: Não
- Promove modéstia/vergonha: Não
- Torna-se habitual: Não

Pedras pré-históricas
Pedras eram usadas para raspar e cortar peles. Foto: Reprodução.

Complexas:

- Equipada: Sim
- Número de camadas: Mais de uma
- Proteção contra o frio: Excelente
- Raspagem: Sim
- Instrumentos de perfuração: Sim
- Instrumentos de corte: Sim
- Durabilidade no frio: Sim
- Função decorativa: Sim
- Função social: Sim
- Promove modéstia/vergonha: Sim
- Torna-se habitual: Sim

As roupas no Paleolítico eram feitas de couro e peles de animais. Nossos ancestrais consumiam os animais em todos os estágios. Se alimentavam da carne, usavam a pele para as roupas e os ossos se tornavam instrumentos.

A raspagem é uma característica comum entre o vestuário simples e complexo, isso porque as peles e couro eram extremamente pesadas e impossíveis de serem carregados sem um prévio tratamento.

Agulhas pré-históricas
Agulhas pré-históricas. Foto: Reprodução.


No livro A Roupa e A Moda (1969) de James Laver, o historiador menciona que na Pré-história, inicialmente era empregada a técnica de moer as peles para deixá-las mais macias; no entanto, nem sempre isso era o suficiente, e posteriormente o ácido tânico, obtido através do carvalho e o óleo de baleia se mostraram mais eficientes na tarefa de dar maleabilidade aos insumos.

Roupas Simples

O vestuário simples não apresentava durabilidade em baixas temperaturas e a proteção contra o frio não era efetiva. Além disso, tinha outro problema: a falta de modelagem anatômica.

O fato de não possuir um formato fazia com que as roupas simples se tornassem um empecilho na locomoção. 

E como nessa época os primeiros homens não tinham moradia fixa, carregar algo pesado em todos os deslocamentos se tornou inviável, e foi aí que nasceram as roupas complexas.



Roupas Complexas 

O vestuário complexo apresentava ainda que de modo rudimentar, formato de corpo.

Eram roupas feitas sob medida e que estavam muito mais próximas ao contato da pele, gerando consequentemente mais calor. Por serem melhores e mais resistentes passaram a ser preferência. 

Ao passo que essas roupas se tornaram hábito, elas ganharam funções sociais, isto é, passaram a ser um modo de distinguir as tribos e os chefes de tribos.

O ramo da Psicologia que investiga a origem das roupas nos diz que a medida que se vestir se tornou habitual, os homens associaram as roupas à ideia de segurança e proteção, e estar nú por tanto, era um risco à vida, seja esse risco o frio ou as forças sobrenaturais.

Revolução Neolítica

A despeito da Revolução Neolítica, o historiador e professor emérito da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), José Jobson de Andrade Arruda diz:

Revolução da Agricultura Neolítico
Representação da Revolução Neolítica. Foto: Reprodução.

"Novas modificações climáticas alteraram a vegetação na face da Terra. O gelo recuou e, junto com ele, a fauna que o acompanhara, bem como os grandes animais em geral. A Europa central e do norte, tornou-se temperada; o norte da África ficou ressequido e a Região do Saara se transformou num deserto. 

Nessas regiões desérticas e semidessérticas, homens e animais tiveram que procurar as margens dos rios. Ao mesmo tempo em que a população crescia, aumentava as dificuldades para caçar. Esses fatos contribuíram para a sedentarização do homem e para o desenvolvimento da agricultura, com o plantio de trigo, cevada e aveia". [2]


Moda Pré-histórica
Pedaço de roupa da Idade do Bronze. Reprodução: Museu de História Natural, Viena.

O desenvolvimento da agricultura teve efeitos diretos nas roupas. O homem passou a domesticar animais e a dominar plantações, e com isso surgiram as primeiras fibras naturais (animais e vegetais). Há registros do uso delas em roupas, cordões e cestos. [3]

Ornamentação na Pré-história

Como foi proposto acima, com o passar do tempo o vestuário adquiriu funções decorativas e sociais. Algumas escavações mostraram a presença de ornamentos junto às ossadas, geralmente feitas com conchas e dentes.

Acredita-se que as miçangas mais antigas da história (conchas perfuradas) estejam em Israel (aproximadamente 100.000 anos a.C) e Argélia (entre 90.000 e 70.000 anos a.C).

Arte pré-histórica esculturas
Escultura pré-histórica que sugere o uso de ornamentos nós cabelos. Foto: Reprodução.

O fato das ossadas terem esses resquícios abrem margem para duas grandes possibilidades: ou esses ornamentos eram enterrados juntos aos mortos por motivos surpesticiosos ou estavam presos às vestimentas.

Os botões por sua vez, que parecem tão modernos teriam surgido ainda na pré-história. 

Uma representação humana vestindo algo que parece conter uma fileira de botões foi encontrada em Montastruc, França e data do período Madaleniano. [4]

As Mãos de Gargas

Mãos e pés também precisavam de proteção, e o curioso caso das Mãos de Gargas podem indicar o uso de luvas na pré-história.

Esténceis de mãos encontrados na caverna de Cosquer, França, levantaram curiosidades acerca da origem das luvas.

A maior parte das mãos das cavernas estão com um ou mais dedos faltando, sendo o polegar o único presente em todas as mãos. A falta dos dedos pode ser explicada por quatro hipóteses:

A arte das cavernas
Exemplo de mãos pintadas em cavernas. Foto: Reprodução.

1- Os dedos sofreram queimaduras de gelo e por isso deveriam ser amputados;

2- Algumas doenças ocasionaram a amputação dos dedos;

3- Os homens pré-históricos usavam luvas que não cobriam todos os dedos, e a padronização delas poderia indicar algum tipo de codificação de linguagem.

4- Na hora de pintar nas cavernas, alguns homens pré-históricos simplesmente não passavam o pigmento em toda palma da mão.

Vestimentas na Pré-História
Demonstração de como seria um calçado pré-histórico.

O vestuário na Pré-história segue sendo um grande mistério, e os estudos que saem sempre devem ser lidos com cuidado para uma maior compreensão dessa época.

Ian Gilligan, termina seu artigo com algumas reflexões interessantes sobre a escassez de materiais acerca das roupas pré-históricas: 

"Como sinal de nossa distinção moderna, as roupas foram amplamente ignoradas na disciplina da pré-história. Entre as razões para essa negligência estão a baixa visibilidade arqueológica e a dissociação de roupas complexas de suas origens térmicas, compostas por uma ênfase tradicional nos propósitos sociais da roupa em detrimento de suas funções e efeitos fisiológicos. 



Estes últimos vão além do isolamento térmico e incluem os efeitos perceptivos, psicológicos e psicossociais da cobertura rotineira da pele, nosso maior órgão sensorial [...] 

A sensação tátil, por exemplo, é crucial para o desenvolvimento normal dos mamíferos, e o uso rotineiro de roupas inibe os contatos táteis entre os seres humanos e reduz a apreciação sensorial do ambiente, com o potencial de alterar relações interpessoais, sociais e ambientais fundamentais.

Isso tem implicações para o desenvolvimento de estilos cognitivos alterados subjacentes a certos elementos da modernidade comportamental que subsequentemente podem ser transmitidos em nível cultural, quase independentemente da roupa [...] 

A produção de fibras naturais para roupas têxteis foi um aspecto proeminente da agricultura precoce e pode constituir uma base viável por si só para essa transição econômica que se mostrou crucial para o surgimento das sociedades urbanas. 



Por mais arqueologicamente invisível que possa parecer, a roupa é sem dúvida de grande importância para questões-chave da pré-história humana.

O foco neste artigo foi restrito a delinear um modelo térmico para suas origens pré-históricas e para o surgimento subsequente de roupas complexas. 

Parâmetros térmicos - fisiológicos e ambientais - fornecem um meio para inferir a presença de roupas, e considerações tecnológicas fornecem um método para rastrear arqueologicamente seu desenvolvimento. 

Os correlatos tecnológicos são previsíveis e visíveis e chamam a atenção para o contexto ambiental das principais tendências paleolíticas, muitas das quais podem estar relacionadas principalmente a inovações em roupas".

Informações do curso aqui.




Texto escrito por Gabriela Lira.Caso use algum material do blog como referência, por favor dê os créditos.


Fontes:

[1] The Prehistorical Development Of Clothing: Archaelogical Implications Of a Thermal Model (2010), Ian Gilligan, pág. 24.

[2] História Antiga e Medieval (1994), José Jobson de Andrade Arruda, pág. 35

[3] The Prehistorical Development Of Clothing: Archaelogical Implications Of a Thermal Model (2010), Ian Gilligan, páginas 46 e 47.

[4] The Prehistorical Development Of Clothing: Archaelogical Implications Of a Thermal Model (2010), Ian Gilligan, páginas 53 e 54.

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2 comentários:

Andressa Beija disse...

Adorei seu artigo! Muito bem explicado! Obrigada!

Gabriela Lira disse...

Muito obrigada. Feliz que gostou. <3 <33

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